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----   sexta-feira, setembro 29, 2006   ----



----   sábado, fevereiro 11, 2006   ----

Poeminha

A água sai da torneira e molha as minhas mãos
                                                         e enche de água as minhas mãos
                                                                 sujas de sabão.

                                                                 A água sai da torneira
                                                e desenha em minhas mãos
                                     elipses cadavéricas
                          de sabão.

P. Bittencourt [ ? ] at 2:06 AM

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----   quarta-feira, janeiro 18, 2006   ----

Uma brisa em calmaria

Cá entre nós,
Encontro-me em dúvida,
Sobre em que confabular.

Talvez sobre algo intrigante, como esse silêncio
Ou algo tenebroso, como essa escuridão
Algo distinto, como esse céu estrelado
Quem sabe algo belo, como essa foto em minhas mãos
Ou algo valioso, como as lembranças que me vêm a mente

Mas diante de tantos sinais,
Só me resta escrever algo monótono.

Thiago Patto[ ... ] at 2:20 AM

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----   domingo, dezembro 04, 2005   ----

Rest in Piece

Quando por volta de meus dez, doze anos eu tive um amiguinho imaginário. Higor era seu nome. Ele tinha a minha idade também. A mesma exata idade. Crianças podem ser extremamente criativas mas às vezes se esquecem de alguns detalhes pouco importantes; coisas de adultos, elas dizem.

Higor apareceu um belo dia sentado em minha cama, à minha direita. Eu estava a montar uma mansão de Lego — uma imensa mansão, diga-se de passagem; já havia me consumido dois meses de trabalho árduo — quando ele sugeriu trocar algumas peças do portão da garagem, que estavam estragando todo o sistema. Foi um grande susto para mim e, ao mesmo tempo, tudo pareceu muito natural. Ele simplesmente surgiu, apareceu, materializou-se. Nada foi forçado a nós.

Posso dizer com veemência que Higor era uma pessoa perfeita. Perfeita para os meus padrões de perfeição, perfeita para mim e somente eu. Era um segundo eu. Nós não tínhamos aquela frescura de Mãe, deixa um lugar pro Higor na mesa ou Mãe, a senhora não arrumou a cama do Higor. Nada de frescuras, ele me dizia. Tampouco éramos homossexuais; não por inocência (crianças pouco sabem sobre sexualidade, imagine homossexualismo) mas por opção. Éramos pura e simplesmente melhores amigos. Simples assim, eu lhes digo mais uma vez.

E um belo dia ele se foi. Não houve despedidas; nós detestamos despedidas e, como já se sabe, concordávamos em tudo. Higor pegou suas malas imaginárias, arrumou em segredo mais um pedaço da mansão de Lego e foi-se enquanto eu dormia.

Um completo cavalheiro.

Hoje em dia me restam as madrugadas. E os recados de despedida escritos com batom no espelho do banheiro.

P. Bittencourt [ ? ] at 5:04 AM

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----   quarta-feira, julho 06, 2005   ----

Nuvem

O garoto Heinrich estava quase terminando de tirar todo o açúcar do pote e pôr em cima da mesa com metódicas colheradas quando finalmente achou o que vinha procurando durante anos: duas formigas, uma em cima da outra, numa foda antológica. Sentou na cadeira mais próxima e se pôs a olhar, maravilhado.

Após três horas e dezessete minutos de observação, começou a temer que em algum momento a atividade de observar se tornasse um pouco chata e pensou que seria melhor fazer algo mais concreto. Subiu na cadeira, juntou as duas mãos no peito e num salto ornamental mergulhou na direção do pote de açúcar. Após um longo período perdido no espaço, concluiu que já era hora de cair, e caiu. Tudo à sua volta ficou negro.

O garoto Heinrich não esperava que, aliada à sua imersão no pote de açúcar, ocorresse, de modo aparentemente gratuito, uma metamorfose. Ocorreu, e se as formigas pudessem enxergar, o garoto veria, logo depois de acordar, que estava transfigurado numa formiga. Até as anteninhas, singelas, ele tinha. Mas ele nada viu; apenas teve por um breve instante a sensação de estar na almejada terra do lugar nenhum.

Com pequenos toques no chão arenoso, lembrou do salto, e com mais alguns toques em si mesmo, constatou a transformação. Não ficou feliz nem triste, porque lá não estava quente nem frio. Apenas deu as costas ao escuro, meteu a cabeça no chão e começou a descer mecânico.

Logo caiu no que julgou ser um salão, muito quente, grande e barulhento, com vozes cansadas de milhares de formigas. Ele sempre imaginara que as formigas do fundo do pote de tinham vozes alegres e juvenis. Ficou um pouco decepcionado, mas mesmo assim não desistiu da expedição, pois pensou que tinha ainda muitas coisas para descobrir e que não seria aquela pequena constatação - um pouco desagradável, é verdade - que o faria parar por ali.

Entretanto, infelicidade profunda, não foi assim que aconteceu. Quanto mais ele conhecia o império das formigas, mais desapontado ficava. Todos os seres subterrâneos ali residentes eram sisudos. Deve ser porque eles trabalham demais, pensou. Ele ainda era muito novo para ter idéia do que era escravidão, como vocês devem ter notado.

Em um dia sem sol, o garoto formiga Heinrich descansava tranqüilo quando se aproximou uma velha formiga, já cansada e bastante mal humorada, trazendo uma picareta na mão e dizendo umas coisas estranhas, algo como Tu devia fazer alguma coisa para ajudar a passar o tempo aqui embaixo. Numa tentativa desesperada de salvar sua viagem tediosa, ele aceitou o conselho. Mas nem isso o deixou feliz. Pelo contrário: só aumentou o sentimento de insatisfação, pois a velha formiga que havia largado a picareta saiu andando tranqüila e assobiando Singing in the rain e nunca mais voltou.

O garoto formiga Heinrich chegou ao ápice da decepção quando, depois de muitos anos, conseguiu voltar ao ponto da superfície onde havia caído no mergulho original e descobriu que as duas formigas que vira enquanto menino humano eram apenas um holograma cuidadosamente planejado, e bastante mentiroso, que servia de bandeira do império submerso no pote de açúcar e tentava dizer que a vida das formigas era um deleite incomensurável, principalmente no inverno.

Finalmente o garoto Heinrich ficou de saco cheio daquilo tudo e resolveu sair do pote para olhar o céu, que de acordo com o que diziam, ficaria totalmente negro a qualquer instante, pois era dia de São Gregor e logo viria uma nuvem ruidosa de besouros magoados para enfeitar o firmamento de horizonte a horizonte, numa uniformidade ofuscante, mas ainda assim, espetacular.

Abner Dmitruk [ ; ] at 7:26 PM

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----   terça-feira, junho 21, 2005   ----

Porcos não sabem voar

 



I. PRÓLOGO: MOMENTO FORA DE CONTEXTO

Olá, sejam bem vindos ao maldito circo das ilusões. Tomem cuidado para não se surpreenderem com todas as bizarrices que aqui presenciarão. Pode ser chocante para alguns de vocês; aconselho que pessoas de corações fracos, frios, belos, não vejam isso. Na verdade, tudo se resume em apenas uma apresentação, feita através de suas mentes. Psicopatas. Psicodélicas. Psico, psico, psico...

(Uma roleta azul e laranja com traços amarelos espiralados gira em torno dum eixo centralizado. O sanfoneiro, entoando sua melodiosa e triste canção, passa despercebido aos olhos da platéia pela periferia do palco, como um mero pipoqueiro ou vendedor de suvenires. Passa despercebido, inclusive, pela pequena garotinha rósea de vestido azul sentada na primeira fileira. E mais uma vez ela chorou. Sentou no colo de sua mãe e desatou a chorar, como nunca havia um dia chorado.)


II. CIRCO

Psico
Psicopata
Psicodélico
Patético:
Porcos Não Podem Voar.
Mamãe, por que os porcos não voam?
Por que os porcos, os porcos não são como pandas, minha filha.
Mamãe, pandas voam?
Não, minha filha, pandas também não podem voar.


(O apresentador aparece subitamente no palco. Veste um terno branco, uma gravata vermelha com desenhos do Pernalonga e, na mão esquerda, um papel com o itinerário do dia. Sorria compulsivamente, exageradamente, sarcasticamente. Fúnebre, como um palhaço, como os clowns de Shakespeare.

Ela chorava, mas chorava muito. Sua mãe estava desesperada, mas não poderia mentir para a filha. Afinal, porcos não sabem voar. Pandas também não.)


III. O DIA EM QUE FOMOS TODOS FELIZES

Comprou um cofrinho, no formato dum tímido e bolináceo porquinho.
Rosa, sua cor favorita.
Mamãe, os porcos já aprenderam a voar?
Minha filha, por favor, esqueça esse assunto.
Mas, mamãe-
Eu já disse! Chega.

(Os palhaços aparecem, atirando para todos os lados e sorrindo com as gengivas ensangüentadas. Neste exato momento, todos correm pelo picadeiro em direção às montanhas, na tentativa frustrada de pouparem suas vidas pecaminosas. Cansada, desligou a televisão. Parou de chorar. Atirou com veemência seu cofrinho de porquinho cor-de-rosa pela janela do apartamento do décimo segundo andar. Sorriu.)


IV. FIM

Cidade.
Porco rosa.
Um porco rosa caindo,
espatifando-se no chão.
Olhe mamãe, ele conseguiu!
O quê?, quê foi, minha filha?
Veja, ele conseguiu... ele conseguiu... EU consegui...


(Parece-me que nunca entenderíamos o verdadeiro significado daquelas singelas palavras. Foi tudo muito rápido.)


V. FIM?

A doce garotinha,
passeando pela rua e
cantando.
Feliz
alegre
ingênua.

E ele,
novamente ali;
despedaçado,
abandonado,
quebrado:
a perfeita união.

Mamãe, me compra um porquinho rosa?

P. Bittencourt [ ? ] at 1:05 AM

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----   sexta-feira, maio 13, 2005   ----

O funeral

Pedro já estava a pôr uma de suas mãos na pá quando a campainha tocou. Recostou-a num canto e foi atender ao chamado. As flores encomendadas chegaram a tempo. Antes de voltar para o quintal, que ficava no fundo de sua casa, aproveitou e pegou as velas e a caixa de fósforos que estavam na terceira gaveta de cima pra baixo da cômoda de seu quarto, localizada em frente à cama.

Era uma noite tranqüila, quarto dia de lua minguante, céu estrelado. Por um breve período, sentou-se Pedro na grama e fitou algumas constelações, entre elas as de Sagitário, que era referente a seu signo, e a de Orion, que julgava ser a mais bela de todas.

Após o lapso astronômico, refletiu algum tempo sobre o que estava prestes a fazer. Estava ciente de que mudaria permanentemente sua vida. Sabia também que ele poderia não sobreviver à adaptação. Mas precisava correr o risco.

Resolveu então levantar-se e terminar o que estava disposto a realizar. Pegou a pá novamente e começou a cavar. A uns dois metros de onde era feito o buraco, repousava um caixão marrom-escuro, com detalhes em pedra, com cerca de 1,70 de comprimento. Logo ao lado, estava o ramalhete de flores que havia encomendado.

Enquanto abria o rombo em seu quintal, começava a lembrar-se dos bons momentos ao lado de sua companheira. Chegou um instante a querer desistir, mas sua mente rapidamente recolocou-o no trabalho.

Decerto era que seria uma morte prematura, como raramente acontece. Talvez não estivesse preparado, talvez aquele não fosse o melhor momento. Mas se não fosse aquele dia, não seria nunca.

Após terminar a escavação, pegou o caixão com convicção e com muito cuidado deitou-o no fundo do buraco. Retirou a parte de cima, e largou-a à sua direita.

O defunto ainda havia de ser colocado. Ou melhor, o defunto não era realmente um defunto. Não era como uma pessoa que a gente vai lá e dá um tiro, afoga ou explode. Não podemos atingi-lo, podemos simplesmente... enterrá-lo.

Pedro sabia disso, e olhando fixamente para o interior do caixão, fez uma despedida breve e silenciosa . Não sentia qualquer remorso, mas lhe incomodava a sensação de receio. Afinal, convivera com ela durante toda a sua vida, uma separação irreversível dessas poderia causar-lhe seqüelas que carregaria para sempre.

Logo em seguida, lacrou o esquife lentamente. Pegou algumas flores e as depositou no fundo do buraco. Jogou a terra por cima.

Ao lado da porta que dava de entrada para a casa, havia uma cruz de madeira que montara na noite anterior. Segurou-a firmemente, e com as duas mãos cravou-a na terra, perto do caixão. Em volta, colocou as velas acesas e as flores restantes. Elevou um último pensamento. E foi dormir.

Nos dias seguintes, a vida de Pedro foi de certa maneira muito parecida com a que levava antes. Exceto que não apostava mais na loteria, não passava mais debaixo de escadas, e não assistia mais aos jogos de futebol.

Oliver[ ( ) ] at 1:47 AM

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----   quinta-feira, abril 21, 2005   ----

Ociosismo - 1 ano

Acreditem se quiser. Mas essa espelunca está completando um ano de existência.

Agradecemos tudo isso primeiro a De..., ops, quero dizer, a todos os nossos contribuintes, que estão ou já passaram por aqui: Pedro, Abner, Oliver, Natasha e eu.

Agradecemos também aos nossos leitores, inclusive aqueles que chegaram ao nosso site pelo google procurando por "gordas nuas".

Enfim, esperamos que isso aqui progrida e seja algum instrumento útil a humanidade. Ou que simplesmente traga diversão.

E chega.

Segue novo texto logo abaixo.

Thiago Patto[ ... ] at 10:00 PM

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Walter é verde

 
O dia amanhece claro quando Walter, ainda de pijama, desce correndo as escadas de sua casa, gritando freneticamente:

"Estou verde! Estou verde!"

Sua mãe, percebendo a barulheira, sai da cozinha assustada em direção aos gritos. Quando encontra seu filho, se apóia como pode na parede, para não cair. Imediatamente depois, indaga:

"O que aconteceu?"

Walter estava verde. O motivo pelo qual isso ocorreu era desconhecido de ambas às partes. E ele, percebendo o estado de sua mãe, se aproxima devagar com o intuito de segurá-la:

"Qual é o problema?"
"Você ainda me pergunta? Olha como você está?
"Eu já vi. Achei super legal."

Sua mãe já estava preparando as palmadas quando Jorge, seu marido, aparece:

"O que está acontecendo?", diz com ar de superioridade. "Que gritaria é essa?"
"Olha o estado do seu filho, Jorge."

Foi quando ele percebeu o tom esverdeado de Walter.

"Que diabos é isso aí?", pergunta surpreso.
"Eu acordei verde, papai."
"Como assim?"
"Eu não sei. Apenas acordei, me olhei no espelho, e sai correndo pra contar pra vocês.

Nesse momento, a mãe intervém:

"Ele não pode ir à escola desse jeito."
"Isso não é motivo para cabular aula.", responde o pai.

E virando-se para Walter, pede para que ele se arrume.

**********

Indo para a escola, Walter já se imaginava no centro das atenções.

"Meus amigos vão morrer de inveja.", pensava.

Seu pai, dirigindo o carro, tentava supor o porquê de daquela cor. Estava decidido a levar seu filho a um médico assim que o mesmo saísse do colégio.

Quando chegou, Walter mal se despediu de seu pai, e já saiu correndo para sua sala. Seus amigos estavam na porta conversando, esperando a aula. Quando viram aquela mancha verde de uniforme se aproximando, começam a rir. Quer dizer, rir é eufemismo. Eles caíram no chão de tanto rir.
Walter se aproximou timidamente, de cabeça baixa, e parou na frente deles.

"Que feio que você está?", disse um dos amigos.
"Tá muuuiiito feio." disse outro.

Aquela empolgação inicial de Walter já tinha ido embora fazia um bom tempo.

"Eu achei legal...", disse Walter bem baixinho.
"O quê?"
"Nada, não."

Nesse momento, o sinal toca.

"Então, vamos pra aula. Você ai também, ET!", diz um dos garotos.

E todos caem na risada. Foi quando a professora se aproximou:

"Vamos pra dentro agora. Chega de brincadeira."

Enquanto a professora apagava o quadro negro, continuava a caçoação pra cima de Walter. E desta vez todos os alunos assistiam.

"Quem fez a tarefa?" , pergunta a professora.
"Eu." , disse Walter junto com mais alguns.

E a professora finalmente percebe que um dos seus alunos veio verde para a aula.

"O que é isso?", indaga a professora abismada.
"Tem um marciano querendo aprender." , disse um dos amigos sem criatividade.

Risos por todos os lados.

"É, tem um gremlin perdido aqui.", disse outro mais esperto

E assim segue-se as piadas e chacotas, até que Walter não aguentou mais e começou a chorar. Um silêncio respeitoso pairou quando a professora, perdendo completamente a paciência, brada um "Chega!" de dar inveja a qualquer radialista. Logo em seguida, sentindo um certo nojo, aproxima-se da carteira de Walter.

"Calma, o que aconteceu?", perguntou com uma voz doce e suave.

Nada. Não conseguia parar de chorar. Ela então resolveu ligar para os pais dele. Juntando toda a coragem do mundo, pegou em suas mãos cor-de-abacate e o levou até a direção da escola.

Após o chamado, Jorge veio o mais rápido que pôde. A professora o leva para um lugar mais reservado e explica o que aconteceu. Sem dizer nada, Jorge pega seu filho e o leva para casa.

**********

Parou o carro na porta, e mandou seu filho ir diretamente para o banho. E aproveitou para conversar com sua esposa. Estava ela descascando cebola, preparando o almoço.

"Que faz aqui tão cedo?" , perguntou ela
"Estou de saída. Só passei pra deixar o garoto."
"O que aconteceu?", perguntou sua mulher assustada.
"Ele começou a chorar e não parou mais. Uns moleques estavam provocando ele por causa de sua cor."

Nesse momento ela se enfurece.

"Eu disse que não era uma boa idéia levar ele pra escola, era de se esperar, e..."
"Chega, fica quieta, eu não tenho tempo pra isso.", interrompe Jorge mais furioso ainda. "Eu vou trabalhar e depois a gente conversa."

E assim foi. A mãe de Walter, logo após a saída do marido, correu para o quarto de seu filho, com o intuito de conversar com ele, acalmá-lo, e toda aquela ladainha de mãe. Chegando lá, encontrou um singelo bilhete:

"Papai e mamãe. Ninguém gosta da minha cor. Estou indo embora procurar alguém que me aceite como eu sou, alguém verde como eu."

E logo embaixo:

"Odeio todos vocês, seus branquelos filhos da puta."

Vai entender...

Thiago Patto[ ... ] at 9:52 PM

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----   quinta-feira, abril 14, 2005   ----

Nada

Uma célula insignificante, uma ameba mergulhada em nada, pensando em nada, sendo observada por ninguém. Ninguém. Ninguém se importa, ninguém que sabe de nada, existência, evolução, estagnação. Desde quando? Desde nunca. Desde sempre. Sempre não existe, nunca deixou de ser nunca, sempre foi este nunca, um vazio, um nada. Tudo ou nada? Nada? É, nada, filosofia de vida, mesmo que a vida seja nada. Então filosofia, sendo nada, seria nadasofia? Sofia diz que não é nada. Coitada da Sofia! Ela não é nada, não é a vida, a existência, a evolução. Ela é a estagnação. Uma ameba insignificante, mergulhada em nada, sendo observada por ninguém. Só isso. Nada.

P. Bittencourt [ ? ] at 9:03 AM

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----   sexta-feira, abril 08, 2005   ----

O tatu e o pinguim

Um tatu corria, por divertimento, sobre um grande lago congelado. Deslizava sua alegria, indo de um lado para outro. Foi quando encontrou um pinguim todo desengonçado, que mal conseguia ficar de pé.

O tatu, querendo se divertir, começou a zombar do pinguim, jogando-se em frente dele, atrapalhando seu percurso, fazendo-o cair mais e mais vezes. Às vezes se punha a empurrar o pinguim, não deixando que ele escapasse. A pobre ave nada podia fazer, e começou a chorar. E o bichinho cascudo pouca bola dava para isso.

Mas uma hora ele acabou se cansando da brincadeira, e falou num tom de deboche:

"Ah, cansei! Pode ir embora, seu bicho burro."

Naquela hora, o sol já estava bem forte, e a camada de gelo estava bem fina. E o pinguim, percebendo isso, jogou-se como pôde em cima do tatu. A camada de gelo se rompeu, e ambos foram parar nas águas geladas do lago. O pinguim, hábil nadador, via seu não amigo se debatendo, na esperança de permanecer imerso. E este, juntando todas as suas forças, gritou para o pinguim:

"Me salve, eu imploro!"

O pinguim, sentindo certa pena do tatu, até pensou em ajudá-lo, mas deu as costas, subiu novamente na camada de gelo, e saiu no seu jeito desengonçado do lago.

Moral: Vingança é um prato que se come frio. Mas frio mesmo é o estado do tatu a uma hora dessas.

Oliver[ ( ) ] at 4:47 PM

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----   domingo, abril 03, 2005   ----

Era uma vez.

"uma história sobre o tudo, sobre o nada, e sobre as posições das informações binárias num segmento qualquer."

"ou, simplesmente, zero."

Houve um tempo em que uns habitantes duma cidadezinha a oeste do país resolveram ser felizes. Isso começou a acontecer cerca de onze ou doze meses atrás. Todos acordavam bem cedinho, tomavam sua refeição matinal assistindo porcos ensaboados na TV Cultura — certas vezes tinham a sorte de presenciar pingüins tocando piano; mas é apenas um boato, nunca foi provado — e rumavam em direção às suas tarefas cotidianas. Os homens velhos e os Juvenais iam trabalhar, as moçoilas novinhas iam cantarolar pelas avenidas com pacotes de jujubas nas mãos e os garotinhos pueris ficavam pelas ruas viajando no azul do céu e chutando tampas de garrafas. Enquanto isso, as donas mães ficavam brincando de casinha com seus rádios de pilha ligados e caçavam fios de cabelo para guardarem de recordação.

Havia também a garota que sempre sorria, o casal recém formado contando estrelas no telhado de sua casa, o escritor calado num restaurante pomposo anotando seus devaneios psicóticos, e mais umas dúzias de coadjuvantes quaisquer que sempre complementam uma estorinha falsa de roteiro fraco.

Essa era a rotina daquela pacata cidade a oeste do país. Então chegou um dia em que os habitantes se cansaram. Fecharam as portas de seus estabelecimentos comerciais, recolheram o lixo das ruas, apagaram os escritos nas paredes, queimaram os livros apócrifos das bibliotecas públicas e foram-se embora, não se sabe ao certo para onde.

Talvez eles nunca tenham existido de verdade. Ou talvez, e só talvez mesmo, eles tenham sido um pedaço duma estória maior; uma estória sobre o tudo, sobre o nada, e sobre uma pacata cidadezinha a oeste do país, onde seus habitantes são simples e felizes.

P. Bittencourt [ ? ] at 3:22 AM

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